Derby das Coreias – Vizinhas distantes na ideologia

Talvez, o caso mais extremo da saga: “Isto não começou com o futebol”. Separadas há mais de 50 anos depois de uma guerra sangrenta que colheu a vida a mais de quatro milhões de pessoas – maioritariamente civis –, o desporto assume ser mais um dos pretextos para que surja uma aproximação entre os dois lados desta península asiática – Derby das Coreias

Derby das Coreias – Nesse sentido, o futebol, enquanto “desporto-rei” massivamente popular, através da sua capacidade de agregação das massas em volta de uma paixão, desempenha um papel fundamental.

A prova de que o diálogo existe e que se está a caminhar para uma “relação institucional”, em vez de apenas uma “trégua”, é que a Coreia do Norte prepara-se para receber a sua congénere do Sul no Estádio Kim Il Sung, em Pyongyang, local onde não jogavam desde 1990, já no próximo dia 15 de outubro.

 AudioTip  Coreia do Norte vs Coreia do Sul – Campeonato do Mundo

A última vez que tinham sido sorteadas no mesmo grupo, na Fase de Qualificação para o Mundial de 2010, os jogos da Coreia do Norte em “casa”, foram disputados em Shangai. Só por isso, este jogo já será histórico, bem como importante para as contas futuras das duas nações, visto que o jogo também não é a “feijões”, fazendo parte da segunda jornada do Grupo H da Fase de Qualificação da Ásia para o Mundial de 2022 no Qatar.

Para além disso, em 2018, os dois países participaram nos Jogos Olímpicos de Inverno, em Pyeongchang, com uma bandeira unificada.

 

A equipa feminina de Hóquei no Gelo da “Coreia” – se assim lhe pudermos chamar – entrou mesmo em campo com essa bandeira unificada nos uniformes.

Para já, o que também se sabe, é que ambas as Federações já demonstraram interesse numa organização conjunta do Mundial de Futebol Feminino, em 2023.

Um conflito despoletado por outros

Vamos então a um pouco desta história difícil entre os dois países. Não é exagerado dizer que os três anos entre 1950 e 1953 foram os mais negros da história de ambos os países.

União Soviética (URSS) e Estados Unidos da América (EUA) despoletaram este conflito e neste período temporal, a Guerra Fria aqueceu, provocando o número de baixas que já mencionámos acima e um medo generalizado em todo o mundo, devido às potências nucleares de que estamos a falar.

A Guerra da Coreia foi sobretudo uma divergência entre dois ideais políticos antagónicos e que ainda hoje provocam conflitos diplomáticos.

 

Depois da rendição das tropas japonesas que tinha o domínio da Península Coreana, entraram em cena os dois pólos económicos e militares de maior dimensão do mundo.

– Coreia do Sul, ainda hoje regida pelo Capitalismo proveniente dos EUA, o seu país colonizador;

– Coreia do Norte, tomada pelos soviéticos, que implementaram o Comunismo como principal ideal.

Após diversas tentativas de derrubar o governo sul-coreano, a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul a 25 de junho de 1950.

As tropas norte-coreanas conquistaram Seul, a sua capital administrativa, e depois com a intervenção das Nações Unidas e dos EUA, mas conseguiram recuperar o comando e expulsar os invasores.

Derby das Coreias

Os anos que se seguiram

Como é público, a relação entre ambas as Coreias, depois da guerra, ficou tensa. Implementou-se na Coreia do Norte um regime político autoritário, com base nos ideais de Estaline e que ainda hoje vigora no país.

Os seus três líderes mais carismáticos, provenientes da mesma família, mantiveram o pulso firme na população. Hoje em dia, Kim Jong-Un é o seu Presidente.

Com a ajuda essencial da URSS, os norte-coreanos prosperaram até meados de 1970, quando a crise do petróleo os deixou em maus lençóis, algo que não mudou.

Coreia do Sul

Um país muito afetado pela fome e pobreza, maioritariamente rural, com a ONU a estimar que um terço da população está subnutrida. A esperança média de vida do seu povo é os 70 anos de idade, menos 12 que na Coreia do Sul.

O seu regime impede-os também de ter acesso ao que se passa fora das suas fronteiras e mesmo quem lá vive, tem de muita atenção com aquilo que diz e aquilo que defende, ou corre o risco de ser mais um dos milhares de presos políticos sob custódia.

Coreia do Norte

Derby das Coreias

Por exemplo, a internet na Coreia do Norte é diferente daquela que os demais cidadãos mundiais utilizam.

 

Já a Coreia do Sul, liderada por Moon Jae-In, com um trajeto muito mais pacífico, acabou por se tornar num dos países mais influentes na Ásia, sobretudo, na área do entretenimento, sendo apelidada de “Hollywood asiática”.

Existem cerca de 400 estúdios independentes – em constante crescimento – que produzem conteúdo para o mercado. Aqui, reina a democracia, apesar da controversa “Lei de Segurança Nacional”, que considera delito criminal ter simpatia para com a sua congénere do Norte.

Estamos a falar de 50 milhões de pessoas, em comparação com os 20 milhões da Coreia do Norte e diferenças e coisas tão simples como o que vestir, o fato de poderem viajar para onde quiserem, ou mesmo liberdade para escolherem a sua própria religião.

Derby das Coreias - estrela principal

Os craques das Coreias: Presente e Futuro

Falando agora de futebol, é incontornável mencionarmos a grande estrela na atualidade e a grande promessa para o futuro das Coreias.

Principalmente desde 2015, altura em que completou a sua transferência para o Tottenham Hotspur, Son Heung-Min é praticamente um valor-notícia na Coreia do Sul, o seu “7”.

Tal como Cristiano Ronaldo é para os portugueses, como são Pelé e Ronaldo (“O Fenómeno”) para os brasileiros, assim como Maradona e Messi para os argentinos.

 

Já do lado norte-coreano, também há um craque em potência que usa o “7”. Desconhecido ainda para muitos, apresento o avançado Han Kwang-Song, jogador de 21 anos que atua na Juventus Sub23. E não é à toa que aqui está… Muitos até já o apelidam de “Son norte-coreano”.

Fez toda a sua formação em Itália, mais concretamente no Cagliari, e depois de um empréstimo ao Perugia – de dois anos – os responsáveis da Vechia Signora viram em si talento, tanto que o contrataram, por empréstimo de dois anos, mas com obrigatoriedade de compra no final deste período.

 

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Derby das Coreias

O Fator S(on) sul-coreano

Em 83 partidas disputadas pela selecção do seu país, o sul-coreano tem 24 golos marcados, números que não impressionam, mas que são um excelente cartão-de-visita para quem ainda não o conhece bem.

Já participou na Asian Cup por três vezes (2011, 2015 e 2019), dois mundiais (2014 e 2018) e ainda nos Asian Games, onde capitaneou a equipa de sub23 à vitória, permitindo que todos os presentes se “escapassem” ao serviço militar obrigatório, que vigora naquele país. Individualmente. Mas já foi considerado o melhor jogador a atuar na Coreia do Sul, na Ásia e foi considerado na temporada passada, o melhor jogador dos clubes de Londres na Premier League, bem como jogador do ano para os adeptos do Tottenham Hotspur.

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Para além de ser um jogador fabuloso – do qual eu sou fã –, para os responsáveis da Federação Coreana e até para os responsáveis governativos máximos do país, o avançado de 27 anos é o principal símbolo de uma nova geração.  Agora começa a colher frutos e a chegar ao futebol europeu, onde podem definitivamente demonstrar e desenvolver todo o seu talento natural. Hwang Hee-chan (RB Salzburg) e Lee Kang-In (Valencia) são outras das estrelas mais emergentes do futebol coreano.

Muitos deles, já nem jogam no seu país, mas ainda têm de fazer paragens em campeonatos mais periféricos antes de chegarem a Europa, em grande parte das vezes, pelas portas entreabertas da Bundesliga.

Derby das Coreias

Han Kwang-Song jogador no Derby das Coreias

Han Kwang-Song e a jovem Coreia do Norte

Por ser bem mais jovem e não ter ainda uma carreira digna de registo na seleção do seu país. Mas não vou compará-lo com Son, seria injusto para a jovem promessa.

O que podemos dizer é que no Perugia, nas duas épocas em que lá jogou (ambas na Serie B italiana), jogou em 36 partidas e marcou por 11 vezes. Números que são muito bons, especialmente numa liga como a italiana, onde o golo é “caro”.

Aliás, este jovem é a principal estrela de uma seleção em constante renovação. Talvez inspirada no sucesso que foi a participação no Mundial de 1966, em Inglaterra. Onde conseguiram chegar aos Quartos-de-Final, eliminando a Itália e caindo aos pés do Portugal de Eusébio.

Das mais recentes convocatórias, fazem parte muitos jogadores com idades entre os 18 e os 24 anos. Mais concretamente, onze futebolistas.

A vasta maioria deles ainda joga na Coreia do Norte, porém, há uns que já se aventuraram ou ainda se aventuram fora do país. Para além do Japão, pela proximidade, Itália e Áustria são dois dos outros países escolhidos pelos jogadores.

Outro dos pontos fortes desta seleção norte-coreana é o seu mais recente treinador: Yun Jong-Su. Em seis jogos disputados, venceu cinco, algo que intui não só a boa equipa que se está a formar. Mas também a boa qualidade da sua metodologia de trabalho.

Coreias a jogar - Derby das Coreias

A estatística

Coreia do Norte e Coreia do Sul, apesar dos seus anos de coexistência e por todas as razões que elencámos acima, apenas jogaram entre si 15 vezes. Sendo que neste mês de outubro será a 16ª.

Nos anteriores encontros, existe uma clara superioridade da Coreia do Sul. Esta teve sempre equipas melhores, fruto de um desenvolvimento sustentado da formação de atletas, bem como da contratação de treinadores estrangeiros.

Mas que trouxeram o seu “know-how” futebolístico e aplicaram-no na seleção. Guus Hiddink, Dick Advocatt, Pim Verbeek e Humberto Coelho foram os mais “conhecidos” a tomar as rédeas dos coreanos.

Coreia do Sul – 7 vitórias
Coreia do Norte – 1 vitória
Estão ainda registados 7 empates, de acordo com dados da FIFA.

 

O primeiro jogo decorreu em 1978 (de que há registo) e a única vitória da Coreia do Norte decorreu em 1990, no único jogo que decorreu na sua capital.

Em golos marcados, a Coreia do Sul regista 17 tentos, contra os seis da sua congénere do Norte.

As outras nações presentes no Grupo H são o Turquemenistão, o Líbano e o Sri Lanka, para além de ambas as Coreias.

Os portugueses têm um dos “seus” envolvido intimamente com uma das seleções, no caso, a Coreia do Sul. Estou a falar de Paulo Bento, selecionador dos sul-coreanos. O que faz com que o derby tenha uma “pitada de sal” diferente do habitual para nós.

No sorteio, o português transmitiu aos seus jogadores, após verem que partilhavam grupo com a Coreia do Norte.  “Quando os enfrentarem” terão de demonstrar por eles “o mesmo respeito que demonstrariam por qualquer outra equipa”.

Derby das Coreias

Rivalidades – Crónica Betopedia

Nós, adeptos e amantes do futebol, gostamos de rivalidades, mas sem nunca se passar os limites da competição desportiva saudável.

Carlos Ribeiro – Jornalista na crónica – Rivalidades na Betopedia

Entretanto o primeiro passo está dado e há condições para que este jogo de futebol seja histórico. Contudo na medida que pode contribuir para a contínua alteração de um dos cenários políticos mais crispados do mundo.

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